11/09/2019 04:30
Os períodos autoritários sempre nasceram simulando
a defesa de ideias que não poderiam ser implantadas na democracia. As
instituições democráticas seriam estorvo nessa visão autoritária. No Brasil,
dizia-se que 1964 fora também contra a corrupção e a inflação. Quem conseguiu
vitórias nas duas frentes foi a democracia. Golpes às vezes são dados com o
pretexto de acelerar mudanças econômicas. O presidente Bolsonaro, a sua família
e alguns em seu entorno já louvaram tantas vezes as ditaduras que ignorar isso
é insensatez. Esse é o contexto da mensagem do segundo filho. Ela precisa ser
levada a sério e não ser desdenhada como mais uma do “carluxo”.
Carlos sempre foi o especialista em mídia digital e
é quem fala para as alas radicais do bolsonarismo. A tentativa de se explicar
depois adianta pouco. Ele não foi mal interpretado. Também não foi uma postagem
errada, de impulso ou um deslize. Queria dizer mesmo que as mudanças que o
governo prometeu não estão funcionando e há um motivo. “Por vias democráticas a
transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos... e
se isso acontecer”. Defendeu que a roda está “girando em seu próprio eixo” e
conclui que os que “nos dominaram” continuam dominando. O que ele quer dizer? O
que ele disse. Está explícito. Não se pode acusá-lo de ambiguidade.
Como não foi dúbia a afirmação do deputado Eduardo
Bolsonaro durante a campanha de que o STF poderia ser fechado bastando “um cabo
e um soldado”. Esse desprezo por um dos poderes da República fica mais claro na
fala completa dele durante a campanha presidencial. Alguém perguntou o que
aconteceria se o STF impugnasse, por alguma irregularidade, a candidatura do
pai, e ele respondeu:
— Se o STF pagar para ver vai ser ele contra nós.
Será que eles vão ter essa força mesmo? O pessoal até brinca lá, cara: para
fechar o Supremo não precisa nem de um jipe, basta um soldado e um cabo. E não
é para desmerecer o soldado e o cabo. O que é o STF? Tira o poder da caneta de
um ministro do STF.
Perguntado insistentemente sobre isso, Bolsonaro
infantilizou o deputado: “Eu já adverti o garoto.” Eduardo foi direto no seu
desprezo a uma das instituições da República democrática. Só ficou vaga a frase
“o pessoal brinca lá, cara”. Quem é o “pessoal” e onde é “lá”? Desde que passou
a ocupar funções públicas Bolsonaro tem defendido regimes de força, tem
elogiado torturadores e os seus crimes. Não há fatos isolados neste caso.
Em todos os gestos, os filhos do presidente se
colocam como fidalgos, o que também não é democrático. Quem seria admitido em
um grande hospital portando arma? Eduardo repetiu ontem o gesto na Firjan. Se
virar embaixador nos Estados Unidos ele conseguirá embarcar, desembarcar, fazer
diplomacia com a pistola no cinto?
Que “transformação” está sendo difícil, talvez
impossível, pelas vias democráticas? Isso Carlos não disse, mas o governo
enfrenta duas frentes de descontentamento. A campanha inventou que o
bolsonarismo era herdeiro da onda de combate à corrupção que já vinha ocorrendo
pela via democrática. Prometeu também crescimento econômico. Nove meses depois,
há evidentes ataques à operação de combate à corrupção, e a economia
desacelerou da fraca retomada que chegou a esboçar em meados do ano passado. E
isso está decepcionando quem acreditou nas promessas de campanha. Aí veio a
tentativa de achar um culpado. No caso, seria a democracia.
Até agora, o que houve foi o desmonte do combate à
corrupção patrocinado direta ou indiretamente pelo grupo no poder. Para
proteger o primeiro filho, Flávio, das dúvidas razoáveis a respeito do que
acontecia em seu gabinete, vale tudo: trocar o comando da Polícia Federal no
Rio, e talvez até em Brasília, desmontar o Coaf, e conseguir uma medida liminar
que parou inúmeras investigações e nomear um PGR que se apresentou como
submisso ao governo. Na economia, o ambiente continua árido, sem qualquer sinal
de melhora a curto prazo. É nesse ambiente de frustração que falou o filho do
presidente, considerado o especialista em comunicação da família.
As palavras querem dizer o que elas dizem. Não adianta
tentar consertá-las depois. Tratar como naturais declarações antidemocráticas
só porque elas são recorrentes é deixar-se entorpecer pelo absurdo. É
exatamente a repetição que as torna mais graves.
Com Alvaro Gribel (de São Paulo)
